quinta-feira, setembro 27, 2012

Balada da Senhora que limpa

A Senhora da limpeza descansa.
Ao seu lado, uma vassoura suja, repousa também.

Juntas,  disfarçam memórias alheias, escondidas meticulosamente debaixo do tapete:
     copos desfeitos em sangue, pecados capitais;
     impressões digitais de presenças proíbidas.
     pegadas de fugas anunciadas;
     detritos perdidos de outra realidade qualquer;

Quando varre o chão, imagina mentiras entre as migalhas de pão, disfarçando as suas dores com as dores inventadas dos outros:
     traições, suicídios,
     fortunas em chamas,
     impérios destruídos,
     felicidades evitadas.

Mas ninguém a imagina a Ela,
rugas esculpidas a lixívia,
ossos distorcidos pelo tempo,
na tentativa incansável de esconder do mundo
     todas as mágoas,
     todo o lixo
     todas as vidas
     todos os vícios.

Ninguém imagina o que sofre a Empregada
porque foi feita para sofrer,
e imaginar lixo e lixívia,
por certo,
cheira mal.

E assimo mundo gira
sempre em seu redor,
escondendo a sua mágoa
de esfregona em punho
eternamente à espreita
de todos os crimes escondidos,
os passados,
e os que continuam sossegados
à espera de acontecer.

A Mulher-a-dias limpa.
Para os outros apaga:
     crimes passionais,
     doenças ilegais,
     paixões impossíveis,
     mortes invisíveis.

Porque quando a casa é limpa
o mundo começa de novo
e é tempo de a voltar a sujar
a vida toda,
outra vez.

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