terça-feira, novembro 24, 2009

London Diaries, Chapter III

Depois da visita, já exausto, ao Tate Modern, percebi que a fascinação pelo néon não é só minha. Obrigado Art Pop por me fazeres sentir um bocadinho menos sozinho. Londres turística tem destas maravilhas antagónicas. A arte clássica da pintura da National Art Gallery à arte contemporânea e controversa, complicada de digerir do Tate. Difícil mesmo. Mas já deixei de fazer de conta que tem tudo muito piada também. Para mim alguns têm, outros não. Sejam pinturas de cristos e santos ou latas de conservas às cores, alguns mesmerizam-me, outras são uma perda de tempo.
Lamento se uma parte do British Museum me parece uma reprodução gigante de um catálogo da Vista Alegre. Não é falta de respeito à herança histórica. Só não me despertam particular curiosidade ou entusiasmo. Estes museus são, acima de tudo, museus escola. Entramos para saber, não para nos deslumbrarmos. A National Portrait Gallery tem um efeito semelhante. Mesmo que ver centenas de rostos retratados em pouco mais de uma hora se possa tornar, no mínimo, enjoativo, as notas explicativas de génios como T. S. Elliot ou Keats tornam a experiência não só suportável, como até, ocasionalmente, agradável.
Há ainda os monumentos. Uma abadia de Westminster majestosa, a provar que a sua importância histórica não é fruto do acaso ou de caprichos reais, mas de uma imponência deslumbrante. Por outro lado, para compensar esse mesmo deslumbramento, existe o Buckingham Palace, candidato destacado na minha eleição da "desilusão da semana". Ou a falta de encanto do Marble Arch, que explica o facto de nunca antes ter ouvido falar dele.
Depois, há Londres das ruas e das culturas urbanas. Do oriente e das índias. Dos pubs britânicos a sério. De dúzias de meninas cambaleantes, cheia de elegância enquanto escorregam nas suas mini saias coloridas. Os punks e os emos despreocupados, tão diferentes como outra pessoa normal qualquer. E todos os outros.
Londres de Portobello Road e Camden Market, a fervilhar de diferenças e de vontade de partilhar, mostrar e experimentar.
E há também momentos de improvisos e coincidências como a electrizante e irrepetível (passe a redundância) jam session nocturna incluída no London Jazz Festival 2009, que enfiou e misturou na cave de uma pizzaria muitos dos génios espalhados pelo cartaz do evento, com colaborações aleatórias geradas aleatoriamente pelo guardanapo, a caneta e a garrafa de vinho do anfitrião. Ou ainda a banda de blues rota/bem disposta a tocar ao acaso num bar de Portobello Road enquanto fugíamos da chuva.
Nenhum de nós sabia do London Jazz Festival quando marcamos a viagem. Para mim, pelo menos, o facto de ter coincidido com a nossa viagem é prova suficiente da vontade centrifugadora do universo de tornar esta semana a semana perfeita para visitarmos Londres.

São as coincidências que fazem os momentos memoráveis. E as vidas também.

quinta-feira, novembro 19, 2009

London Diaries, Chapter II

Ao contrário do que me tinham prometido, Londres não é um deslumbramento imediato. É uma amálgama, às vezes um pouco concentrada demais, de uma cidade com este peso de humanidade às costas. Uma cidade de monumentos mas de lojas de tudo e nada encavalitadas, à procura de um espaço que nunca será delas. Londres de orientais e muçulmanos mais do que de ingleses, Londres de turistas (espanhóis e brasileiros, tantos!). De lojas de luxo e de galinheiros iguais onde se compra tudo que o desespero ou a necessidade gritarem.
Londres tem o que de melhor se pede numa cidade, bem como partes do pior. Londres é uma cidade moderna, um centro de mundos. E está na hora de deixarmos de duvidar: há muito poucos mundos bonitos por aí.
Esta viagem foi uma concentração de coincidências felizes que tinha tudo para dar certo. Dois tipos com vontade de ver tudo, fazer tudo - mesmo massagens orientais! - e gastar pouco. Fartos de estar parados, ou se quiserem mais à vontade com a nossa natureza nómada reprimida por séculos de civilização. E o facto de a viagem ter calhado (literalmente) no Outono, já a entrar no período natalício foi uma dessas coincidências felizes. Hyde Park de folhas a cair de dia, Londres néonica de Natal, à noite. Quem quiser escolher melhor altura do ano, pode tentar. Eu pessoalmente não gosto de perder tempo.
A poesia do néon é pouco convencional. É estridente e espalhafatosa e cobre a cidade em polvorosa para chegar a todo o lado, com táxis e autocarros que resistem ao tempo para não deixar a cidade parar. O néon ajuda. Acorda, incentiva e grita que os dias podem acabar, e que a arte está nos museus mas foi resgatada das ruas e das pessoas.
Parem um pouco numa rua caótica qualquer, e observem. Mas todos temos um olhar carregado de algo que a princípio desconhecemos. Não se enganem. Passam pessoas nas ruas. Mas escolham um canto mais protegido do vento e da chuva, e reparem. Há olhares a passar. Rostos. Há sorrisos e dramas a correr tão rápido que, se não fosse o brilho do néon reflectido nas, talvez nos conseguissem escapar.

terça-feira, novembro 17, 2009

London Diaries, Chapter I

Não me culpem por ter chegado a Londres de pé atrás. Alugar um quarto a um tipo qualquer que tínhamos contactado por telefone, por 20£ por noite podia ser no mínimo suspeito. E como continuo a ensinar-me a confiar menos nos outros e mais em mim, estava silenciosamente alerta enquanto esperávamos Niles, o "senhorio". Pelo caminho a pronúncia pouco britânica já nos tinha garantido cinco minutos de conversa de surdos com um funcionário do metro.
Há um tipo alto a aproximar-se, de mão estendida, e um sorriso enorme a condizer. Ao seu lado, um pintas que podia ter saído de um qualquer bairro lisboeta algumas décadas atrás: cabelo platinado, ouro, camisa às flores - o set completo. Despede-se à pressa, atrapalhado e desaparece, deixando Niles entregue àquela que era aparentemente a sua actividade favorita: falar como um desalmado. Sobre a alegada falta de chuva em Londres, sobre os cuidados a ter para sobreviver à cidade, entrecortadas por dezenas de desculpas pela casa ser muito pouco parecida com o palácio de Buckingham. Aqui fica a descrição de Niles completa: grande, cabelo grisalho comprido atado num rabo de cavalo apressado e uns olhos cinzento-azuis abertos, enormes, mesmo abertos, como se tivessem que ver o mundo tudo antes que alguma coisa se passasse fora do seu alcance. Niles não era gago, mas quando não sabia o que dizer a seguir, repetia maquinalmente a última sílaba até se lembrar do que vinha seguir, ou de o inventar. Mais tarde íamos discutir que parte de Niles ser assim se devia à loucura ou aos copos que já devia ter bebido àquela hora. Eu encontrava-me firmemente do lado da loucura. Um louco gigante que nos alugou um quarto pelo preço da chuva - chuva essa que fez questão de cair abundantemente nos dias que se seguiriam como que para sublinhar a falta de senso de Niles quando nos dizia que em Londres praticamente nunca chovia. Notória quando nos explicava três vezes como funcionava a máquina de lavar roupa ou nos mostrava que, na opinião dele, a roupa saía da máquina tão pouco encharcada que às vezes a vestia imediatamente. Tinha também explicações sobre tudo, desde os computadores das bibliotecas públicas britânicas até aos tratados medievais assinados entre Portugal e Inglaterra. Niles tinha ainda duas toalhas de banho para nós. Devia ter por volta de 40 anos. Essa foi a primeira e última vez em que vi Niles.
Como deve ter ficado claro, fomos para Londres como turistas e acabamos por aterrar directamente num sketch real de uma britcom a valer. Londres dos londrinos, britânica de gema. A Londres dos turistas ficaria para o resto da semana.


Nota: A noite incluiu ainda um jantar num pub irlandês, brasileiras embriagadas, música ao vivo e a primeira viagem num double decker bus de borla.
[Sim, "There is a light that never goes out" fazia obviamente parte da banda sonora para toda a semana.]

London, II [com chuva]