segunda-feira, julho 18, 2011

Poligamia Eléctrica

Eles invadem a noite:
um número indefinido
de sorrisos
ligados à corrente,
luminosos e negros,
como a noite que se esconde para lá das luzes
e da batida perdida da noite.

Um sem número de paixões clandestinas,
escondidas dos fantasmas de pó e de sangue,
que explodem como música
ou outro acidente qualquer.

Sexo e semi-amores itermitentes,
alimentados a red-bull, ecstasy e esperança
como se o fim do mundo tivesse chegado,
e a única saída seja a celebração.

As bocas intoxicadas encontram-se em desconhecidos.
O tempo disfarça-se de vento e gelo nas costas despidas de amantes
aleatórios, almas gémeas de pequenos minutos
em que alguns
[inconscientes de futuros impossíveis]
arriscam ser felizes.

No dia seguinte resta um hálito a tristeza,
e a esperança que a música nos devolva o fim do mundo
e a liberdade de uma noite mais.

segunda-feira, julho 11, 2011

Como as estrelas todas,
e o mar inteiro no teu olhar:
há algo no fundo de nós que não se explica,
mas que se encaixa.
Como os nossos lábios,
como os nossos sorrisos tímidos
numa fuga preguiçosa de quem se quer encontrar.

Existe no fundo de nós algo que nos quer
com a violência e a certeza de uma bala
com a doçura e o medo do primeiro olhar.

Há qualquer coisa,
que as ondas parecem perceber,
que o vento nos tenta sussurar,
Algo que nós sabemos,
mas não sabemos explicar.

quinta-feira, junho 02, 2011

Procura-me.
Nas tempestades,
nas lâminas de silêncios que finges não perceber,
nos abraços sem querer que nos esquecemos de evitar.

Deixa-me, e encontra-me de novo
nas chuvas e nos espaços
vazios que preenchem as nossas ausências resignadas.

Deixa os livros e as promessas
de inícios que escondemos por detrás de olhares implacáveis
para trás.

Vamos partir.
à procura de tudo o que temos medo de encontrar
aqui
bem no fundo,
quase perdido,
mesmo no meio de nós.

quarta-feira, maio 11, 2011

5.

Ya no se encantarán mis ojos en tus ojos,
ya no se endulzará junto a ti mi dolor.

Pero hacia donde vaya llevaré tu mirada
y hacia donde camines llevarás mi dolor.

Fui tuyo, fuiste mía. Tú serás del que te ame,
Del que corte en tu huerto lo que he sembrado yo.

Yo me voy. Estoy triste: pero siempre estoy triste.
Vengo desde tus brazos. No sé hacia dónde voy.

... Desde tu corazón me dice adiós un niño.
Y yo le digo adiós.

 
Pablo Neruda, Crepusculario

terça-feira, março 29, 2011

Nocturno

"Como se fosses noite e me atirasses
Uma corda de músculos e rosas.
Como se fosses noite e me deixasses
Deslumbrado com todas as sombras,
Com todos os silêncios,
Com todos os passeios de mãos dadas com o impossível,
Com todos os minutos,
Os lentos, os belos, os terríveis minutos
Que se escoam com a angústia nas escadas.
Como se fosses noite e acordasses
Todos os olhares furtivos aos bancos vazios,
Todos os passos hesitantes que ninguém segue
Mas que deixam na rua deserta,
Na cidade ausente,
O arabesco triunfal dum arcanjo que passa,
O rasto vitorioso dum condenado que dança,
Rindo dos deuses que o julgaram.

Como se fosses noite e arrastasses
O tule hierático e vermelho da cauda de todas as prostitutas
Que desafiam o mistério, roçagando,
A ganga de todos os operários
Que sofrem o mistério, fumando,
O cabeção ingénuo de todos os marujos
Que sonham o mistério, ondulando,
A renda esfarrapada, esvoaçante e preciosa de todos os invertidos
Que inventam o mistério, desesperando,
E a carne, o sangue,
O cheiro a suor e a sono de todos os vadios,
De todos os ladrões que dormem nas esquadras
E têm o mistério, ousando!

Ah! Se tu fosses noite e me atirasses
A um poço de membros e de raiva
Onde plantas carnívoras crescessem
E onde Deus - se existisse - talvez me abrisse os braços!"




José Carlos Ary dos Santos