terça-feira, janeiro 12, 2010

Era tão bom viver nos anos 60, e acreditar ser um bocadinho menos estúpido do que agora. Ser-se hippy e ser legítimo ter a certeza que um dia podia ser tudo melhor, e que esse dia podia até ser amanhã. Não ter que ter medo, renegar o medo, ostracizar o medo. Quantos milhões de girassóis são precisos para cobrir a bomba de hidrogénio? Quantos milhões de pessoas fotocopiadas são necessárias para nos sentir-mos normais? Não vale a pena contar. Ou acreditar. E acabar enrabado numa valeta encharcada de chuvas e mijo, com um tubo metálico tão largo como uma bomba a rasgar-nos o cu ensanguentado. Ou então sozinhos. Mas que diferença faz? Deixamos o tempo avançar desumanamente porque nos esquecemos de lhe dar um bocadinho de humanidade. Não é ele de certeza o culpado pelos violadores de túmulos, mortos e velhinhas. O que é que vocês querem? O tipo continua estendido na estrada, com o rabo aberto em forma de flor vermelha, o tubo quase a empurrar-lhe as órbitas para fora, mas os carros não podem parar nem olhar, está verde e ninguém quer ouvir o tipo de trás buzinar, sair cá para fora com esta chuva toda e levar um tiro porque parou no amarelo e está a chover como o caralho. E o tipo está morto, enrabado ou não, pelo menos não sou eu. E há sopa em casa e é dia de futebol, e isso é que é importante.

domingo, dezembro 27, 2009

Para uma menina, com uma flor

"E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê."

Vinícius de Moraes, Para uma menina com uma flor

terça-feira, novembro 24, 2009

London Diaries, Chapter III

Depois da visita, já exausto, ao Tate Modern, percebi que a fascinação pelo néon não é só minha. Obrigado Art Pop por me fazeres sentir um bocadinho menos sozinho. Londres turística tem destas maravilhas antagónicas. A arte clássica da pintura da National Art Gallery à arte contemporânea e controversa, complicada de digerir do Tate. Difícil mesmo. Mas já deixei de fazer de conta que tem tudo muito piada também. Para mim alguns têm, outros não. Sejam pinturas de cristos e santos ou latas de conservas às cores, alguns mesmerizam-me, outras são uma perda de tempo.
Lamento se uma parte do British Museum me parece uma reprodução gigante de um catálogo da Vista Alegre. Não é falta de respeito à herança histórica. Só não me despertam particular curiosidade ou entusiasmo. Estes museus são, acima de tudo, museus escola. Entramos para saber, não para nos deslumbrarmos. A National Portrait Gallery tem um efeito semelhante. Mesmo que ver centenas de rostos retratados em pouco mais de uma hora se possa tornar, no mínimo, enjoativo, as notas explicativas de génios como T. S. Elliot ou Keats tornam a experiência não só suportável, como até, ocasionalmente, agradável.
Há ainda os monumentos. Uma abadia de Westminster majestosa, a provar que a sua importância histórica não é fruto do acaso ou de caprichos reais, mas de uma imponência deslumbrante. Por outro lado, para compensar esse mesmo deslumbramento, existe o Buckingham Palace, candidato destacado na minha eleição da "desilusão da semana". Ou a falta de encanto do Marble Arch, que explica o facto de nunca antes ter ouvido falar dele.
Depois, há Londres das ruas e das culturas urbanas. Do oriente e das índias. Dos pubs britânicos a sério. De dúzias de meninas cambaleantes, cheia de elegância enquanto escorregam nas suas mini saias coloridas. Os punks e os emos despreocupados, tão diferentes como outra pessoa normal qualquer. E todos os outros.
Londres de Portobello Road e Camden Market, a fervilhar de diferenças e de vontade de partilhar, mostrar e experimentar.
E há também momentos de improvisos e coincidências como a electrizante e irrepetível (passe a redundância) jam session nocturna incluída no London Jazz Festival 2009, que enfiou e misturou na cave de uma pizzaria muitos dos génios espalhados pelo cartaz do evento, com colaborações aleatórias geradas aleatoriamente pelo guardanapo, a caneta e a garrafa de vinho do anfitrião. Ou ainda a banda de blues rota/bem disposta a tocar ao acaso num bar de Portobello Road enquanto fugíamos da chuva.
Nenhum de nós sabia do London Jazz Festival quando marcamos a viagem. Para mim, pelo menos, o facto de ter coincidido com a nossa viagem é prova suficiente da vontade centrifugadora do universo de tornar esta semana a semana perfeita para visitarmos Londres.

São as coincidências que fazem os momentos memoráveis. E as vidas também.