paisagens / jamais o vento nos acordará. as sereias saltaram para fora do adolescente sonho. cessaram os cânticos aquáticos. receio olhar-te, quando dormimos juntos sinto o peso incomensurável de tua cabeça sobre o ombro. teu corpo afiado contra o meu. os dedos em teus cabelos descobriam noites intermináveis, ciúmes terríveis, a lembrança doutros corpos. insone, meu corpo abrigava o teu. vestia-te de anémonas envenenadas, matava-te para que não me fugisses. caminhávamos na miragem de algum naufrágio, algures pelas estradas dum continente que nos odiava. a nossa fortuna era estarmos vivos e podermos dormir à beira das auto-estradas e não desejarmos nada. o que possuíamos não era grande coisa mas fingíamos muito bem a felicidade. /
Al Berto - O MEDO
terça-feira, abril 29, 2008
sexta-feira, março 07, 2008
“Now the rail that runs over their forefather’s bones leads them onward pointing into infinity, wraiths of humanity trading lightly the surface of the ground so deeply suppurated with the stock of their suffering you only have to dig a foot down to find a baby’s hand.”
The subterrenaneans, Jack Kerouac
The subterrenaneans, Jack Kerouac
terça-feira, dezembro 25, 2007
Putas
O momento em que passou por ela, naquele vestido sujo. O momento que lhe passou entre as pernas agitadas. O movimento crescente àquela angustiante languidez. Que lhe desceu aos músculos mais insignificantes que ele nunca ousara usar, naquela força animal com que a segurara. Com que a possuíra também, mas não tanto. Aquele olhar. Suplicante por alguém. O seu poder. A volúpia desvastante que ele deixara reinar. O pensamento de censura que arrastou imperdoavelmente para aquele lado do cérebro, aquele ângulo morto para onde ninguém consegue ver. Aquele que só pode ser desconfiado na fotografia que a memória constrói no futuro se o momento se der a lembrar. As pernas nervosas abertas contra a vontade que ela tão bem simulara. Desenhadas no chão, ampliadas por um candeeiro distante. O sentimento de magnitude que o atravessava a cada segundo que a sentia agradecer-lhe naquele olhar suplicante. O rugir cada vez mais próximo. O lamento. Tão suave. A desmoronar impérios. Não? Mas, tão triste… Só as putas olham assim!...
sábado, novembro 03, 2007
Diluições
Nunca o tinha visto por cá…
Pois.
É de cá.
Moro no quarto andar.
Há muito?
Há uns anos.
Nunca o tinha visto cá.
Pois.
E o que traz hoje cá?
Estou praqui a ver se morro.
Traga-me 6 shots de vodka por favor.
Bebe-os de seguida.
Foda-se.
O barman olha-o curioso.
Merda. Já percebo porque é que os polacos fazem isto na maior. Devem ser tristes de nascença. Filhos da puta.
Enquanto sobe as escadas deixa-o o sangue diluído embatê-lo contra as paredes, sem reacção, sem dor. Estende-se contra a porta à espera da vontade de abrir a porta.
Acorda e sabe que devia ter ficado a dormir para sempre. Água. Que peso. Quer chegar à mesa e tomar os comprimidos todos de uma vez até a cabeça voltar ao peso habitual. E água. Muita água. Foda-se. Que pena não ter morrido. Ou não ter bebido. De qualquer modo estaria melhor. Merda. Tenho de deixar de beber outra vez.
Pois.
É de cá.
Moro no quarto andar.
Há muito?
Há uns anos.
Nunca o tinha visto cá.
Pois.
E o que traz hoje cá?
Estou praqui a ver se morro.
Traga-me 6 shots de vodka por favor.
Bebe-os de seguida.
Foda-se.
O barman olha-o curioso.
Merda. Já percebo porque é que os polacos fazem isto na maior. Devem ser tristes de nascença. Filhos da puta.
Enquanto sobe as escadas deixa-o o sangue diluído embatê-lo contra as paredes, sem reacção, sem dor. Estende-se contra a porta à espera da vontade de abrir a porta.
Acorda e sabe que devia ter ficado a dormir para sempre. Água. Que peso. Quer chegar à mesa e tomar os comprimidos todos de uma vez até a cabeça voltar ao peso habitual. E água. Muita água. Foda-se. Que pena não ter morrido. Ou não ter bebido. De qualquer modo estaria melhor. Merda. Tenho de deixar de beber outra vez.
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