domingo, novembro 12, 2006
Jamie Cullum @ Coliseu dos Recreios - 09.11.2006
Se não te vi ontem foi porque caí numa andorinha e voei. Mas se me entraste no olho como areia pequenina ou neve, talvez tenhas chegado perto demais para te ver entrar.
sábado, novembro 04, 2006
Elogio Fúnebre
Quando morreste esqueci-me de chorar. Talvez como forma de rebeldia, como aprendi a fazer nas tardes em que perdia dúzias de berlindes sem desistir. Na altura não chorar era uma das faces dessa minha rebeldia. Hoje talvez seja a única.
Não entendo o que o padre diz. "Faleceu". Gente como nós morrer, falecer é um eufemismo só ao alcance dos outros. Por isso, por muito que a Marta e o Pedro insistissem, não permiti na igreja uma flor que fosse para além do nosso ramo. Nove rosas brancas de amor e de paz. Para sempre o nosso nove. De sorte e de azar.
Enquanto eles te carregam aos ombros acompanho-os, incapaz de me abstrair do decote sombrio da nova namorada do Luís. Duas faces, dois peitos resplandecentes sorrindo nesta tarde em que mais ninguém parece querer sorrir. Será que sorriem por inteiro, aqueles seios? Que felizes são os seios que sorriem sempre, como os teus. Como devem sorrir ainda aí dentro, revoltando-se contra esta tristeza de faz de conta, numa alegria sublime que é o que ainda sinto, provavelmente porque me esqueci de a apagar.
O Pedro e a Marta querem que vá viver com um deles. Eu ri-me e eles assustaram-se " e se acontecer alguma coisa?". Não quero fazer parte da mobília deles, coitados, agora com as crianças tão grandes. Nunca gostei de televisão nem de futebol nem de qualquer tipo de espectáculo. Falta-me a vocação para espectador. Não quero sentar-me à tua espera enquanto assisto escondido às vidas deles. Também nunca fio coscuvilheiro a esse ponto. Vou ficar por aqui a ver a minha vida passar devagarinho, e vivê-la se me der vontade para isso. Senão contento-me a ver a nossa passar outra vez. É uma ideia bem mais bonito do que vestir de preto neste descampado gelado cheio de cruzes. Acabaram de te semear, e acho que já não preciso mais de mim. Digo discretamente adeus aos meus amigos sorridentes, e saio feliz enquanto o Pedro se engana outra vez.
"Não. A tua mãe morreu."
Não entendo o que o padre diz. "Faleceu". Gente como nós morrer, falecer é um eufemismo só ao alcance dos outros. Por isso, por muito que a Marta e o Pedro insistissem, não permiti na igreja uma flor que fosse para além do nosso ramo. Nove rosas brancas de amor e de paz. Para sempre o nosso nove. De sorte e de azar.
Enquanto eles te carregam aos ombros acompanho-os, incapaz de me abstrair do decote sombrio da nova namorada do Luís. Duas faces, dois peitos resplandecentes sorrindo nesta tarde em que mais ninguém parece querer sorrir. Será que sorriem por inteiro, aqueles seios? Que felizes são os seios que sorriem sempre, como os teus. Como devem sorrir ainda aí dentro, revoltando-se contra esta tristeza de faz de conta, numa alegria sublime que é o que ainda sinto, provavelmente porque me esqueci de a apagar.
O Pedro e a Marta querem que vá viver com um deles. Eu ri-me e eles assustaram-se " e se acontecer alguma coisa?". Não quero fazer parte da mobília deles, coitados, agora com as crianças tão grandes. Nunca gostei de televisão nem de futebol nem de qualquer tipo de espectáculo. Falta-me a vocação para espectador. Não quero sentar-me à tua espera enquanto assisto escondido às vidas deles. Também nunca fio coscuvilheiro a esse ponto. Vou ficar por aqui a ver a minha vida passar devagarinho, e vivê-la se me der vontade para isso. Senão contento-me a ver a nossa passar outra vez. É uma ideia bem mais bonito do que vestir de preto neste descampado gelado cheio de cruzes. Acabaram de te semear, e acho que já não preciso mais de mim. Digo discretamente adeus aos meus amigos sorridentes, e saio feliz enquanto o Pedro se engana outra vez.
"Não. A tua mãe morreu."
sexta-feira, agosto 18, 2006
Nunca irás entender a incondicionalidade do meu amor. É uma fatalidade que preciso de respeitar para sobreviver. Mas tu não entendes. Não percebes que o mundo deveria desabar numa vénia imensa sempre que passas. Que todos deveriam fechar os olhos e a boca quando tu falas. Não. Nunca vais perceber que o mundo gira apenas para te ver sorrir. Que um gesto teu nos pode salvar a todos. Que o silêncio se inquieta enquanto a tua gargalhada não chega. Que o nevoeiro só se desfaz em orvalhos carinhosos quando te vê passar.
Nunca iremos ouvir os coros celestes. Os anjos pousaram as harpas para te poderem ver dançar. As máquinas calaram-se, esperando timidamente o estalar das tuas palmas entusiasmadas.
Mas tu não sabes.
E assim, colhes flores no jardim sem realmente saberes que o mundo é todo teu.
Nunca iremos ouvir os coros celestes. Os anjos pousaram as harpas para te poderem ver dançar. As máquinas calaram-se, esperando timidamente o estalar das tuas palmas entusiasmadas.
Mas tu não sabes.
E assim, colhes flores no jardim sem realmente saberes que o mundo é todo teu.
domingo, agosto 13, 2006
Nocturnus
Foi a minha sombra que hoje passou pela estrada
curvada
desvanecendo em lampiões ocasionais
sob um luar de cartão quase postiço...
Houve hoje gargalhadas feriais
saltos em auroras nocturnas plenas de artificialidade...
tão belas...
e eu quase estive lá.
curvada
desvanecendo em lampiões ocasionais
sob um luar de cartão quase postiço...
Houve hoje gargalhadas feriais
saltos em auroras nocturnas plenas de artificialidade...
tão belas...
e eu quase estive lá.
Começavas num trilo relâmpago desfalecendo subitamente numa cadência maldita até aos acordes trovejantes ao mar enraivecido. Plantado no precipício eras imponente e suicída. O mar extendia os dedos em ondas tenebrosas apenas para assistir novamente a mais uma fuga allegra triunfante só tua.
(Ao longe, um lobo em transe uiva em sol menor o apoio incondicional à tua redenção.)
Finalmente, o mar para, rendido. Sereno, ergues-te da negrura do teu banco e abandonas piano ao silêncio do tempo, mergulhando soberbo nas ondas.
(Ao longe, um lobo em transe uiva em sol menor o apoio incondicional à tua redenção.)
Finalmente, o mar para, rendido. Sereno, ergues-te da negrura do teu banco e abandonas piano ao silêncio do tempo, mergulhando soberbo nas ondas.
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