Tenho sempre um livro
de poemas
escondido no fundo da mochila
ou no bolso mais recôndito do casaco
seja ele qual for.
Um dia, ao passar junto à praia
percebi, num arrepio de pânico
a tristeza analfabeta
que habita o fundo do mar.
Sentei-me junto às ondas
e, com o cuidado do artesão
desesperado
arranquei do livro
o meu poema favorito.
Dobrei-o com cuidado
arquitecto orgulhoso
do primeiro poema caravela.
E agora
que quase não o vejo
lá ao fundo
ao oscilar nas ondas
frágil como o sol que ainda o ilumina a ele
e a mim não,
continuo indeciso
sem saber o que será melhor:
se ser resgatado por um veleiro qualquer
com sede de paraíso ou barcos de papel
se afundar-se e, com sorte,
ensinar aos peixes a poesia
que mora para lá das águas
e que pertence a qualquer lugar.
quinta-feira, novembro 22, 2012
sábado, novembro 17, 2012
o teu silêncio
O meu silêncio
em forma de escudo
estilhaçado, despedaçado
cada vez que te vejo passar.
Evitar-te como o condenado evita
a morte: em vão.
Fujo-te e encontro-te,
e quando
finalmente te escapo
invades-me os sonhos
em cenários impossíveis:
as tuas mãos morenas, abertas
num gesto tão impossível
que me faz
acordar;
os teus lábios
nos meus
a recordar beijos,
a prometer alegrias...
Cada vez que me julgo a salvo
assaltas o desassossego
das minhas primaveras
com olhares à prova de bala
e gestos esquecidos
impermeáveis ao esquecimento
a recordar-nos pesadelos melhores.
em forma de escudo
estilhaçado, despedaçado
cada vez que te vejo passar.
Evitar-te como o condenado evita
a morte: em vão.
Fujo-te e encontro-te,
e quando
finalmente te escapo
invades-me os sonhos
em cenários impossíveis:
as tuas mãos morenas, abertas
num gesto tão impossível
que me faz
acordar;
os teus lábios
nos meus
a recordar beijos,
a prometer alegrias...
Cada vez que me julgo a salvo
assaltas o desassossego
das minhas primaveras
com olhares à prova de bala
e gestos esquecidos
impermeáveis ao esquecimento
a recordar-nos pesadelos melhores.
em ti
Estou dentro de ti.
Procuro
no fundo de ti
um vestígio húmido
de esperança.
No teu abraço
o fim e o princípio da solidão
encontram-se.
Os teus olhos
negros,
fechados,
escondem de nós tudo
o que conhecemos:
o fim
o destino vazio de um orgasmo
simulado
que me deste de presente
no dia da tua partida
definitiva,
no aniversário do dia em que descobrimos
o quão fácil era para nós
acreditar na felicidade de faz de conta,
que nos ocupou um inverno inteiro
um inverno cansado
com estrelas cadentes
de desilusões,
e futuros luminosos
que nunca deixaste acontecer.
Procuro
no fundo de ti
um vestígio húmido
de esperança.
No teu abraço
o fim e o princípio da solidão
encontram-se.
Os teus olhos
negros,
fechados,
escondem de nós tudo
o que conhecemos:
o fim
o destino vazio de um orgasmo
simulado
que me deste de presente
no dia da tua partida
definitiva,
no aniversário do dia em que descobrimos
o quão fácil era para nós
acreditar na felicidade de faz de conta,
que nos ocupou um inverno inteiro
um inverno cansado
com estrelas cadentes
de desilusões,
e futuros luminosos
que nunca deixaste acontecer.
sexta-feira, novembro 16, 2012
detalhes de um outono vestido de sangue
As árvores sangram:
arco-íris escarlates vestem as árvores
secas, à espera
da nudez estéril de um novo inverno.
É Outono:
um sol glaciar atravessa a cidade;
as pessoas sorriem pelas ruas,
passeiam à procura de todos os santos
ou de um amigo só.
A melancolia instala-se
de veludo;
traz detalhes de cinismo,
e explica aos corações isolados
que o natal é quando um homem quiser,
mas ninguém na verdade o quer.
O Outono (def.): estação de transição em que o sol de um verão esquecido se prostitui à verdade negra de um inverno prestes a chegar; época de mendigos e sem-abrigo, a celebrar na rua de falos e seios expostos os meses que antecedem o terror árctico da sua extinção anunciada...
[...e em que os mais desafortunados choram sobre cadáveres despidos o fim definitivo da paixão balnear, destino árido de todos aqueles que não se podem dar ao luxo de morrer à fome.]
arco-íris escarlates vestem as árvores
secas, à espera
da nudez estéril de um novo inverno.
É Outono:
um sol glaciar atravessa a cidade;
as pessoas sorriem pelas ruas,
passeiam à procura de todos os santos
ou de um amigo só.
A melancolia instala-se
de veludo;
traz detalhes de cinismo,
e explica aos corações isolados
que o natal é quando um homem quiser,
mas ninguém na verdade o quer.
O Outono (def.): estação de transição em que o sol de um verão esquecido se prostitui à verdade negra de um inverno prestes a chegar; época de mendigos e sem-abrigo, a celebrar na rua de falos e seios expostos os meses que antecedem o terror árctico da sua extinção anunciada...
[...e em que os mais desafortunados choram sobre cadáveres despidos o fim definitivo da paixão balnear, destino árido de todos aqueles que não se podem dar ao luxo de morrer à fome.]
segunda-feira, novembro 12, 2012
assim
Um amor assim,
lento,
a chegar devagar,
sem pressas
na certeza típica da eternidade.
Os teus olhos,
assim,
como amêndoas impossíveis
a resistir às estações
e ao sangue;
a explicar-me sem gestos
que o mundo pode mesmo não ter fim.
O teu corpo
como o testamento mais antigo
como a beleza definida
ainda antes da criação,
A tua presença
e a tua ausência
a coincidirem no meu coração,
a pintar esperanças
com aguarelas invisíveis
num código secreto
que tento em vão decifrar.
lento,
a chegar devagar,
sem pressas
na certeza típica da eternidade.
Os teus olhos,
assim,
como amêndoas impossíveis
a resistir às estações
e ao sangue;
a explicar-me sem gestos
que o mundo pode mesmo não ter fim.
O teu corpo
como o testamento mais antigo
como a beleza definida
ainda antes da criação,
A tua presença
e a tua ausência
a coincidirem no meu coração,
a pintar esperanças
com aguarelas invisíveis
num código secreto
que tento em vão decifrar.
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