terça-feira, outubro 02, 2012

Trova da noite que mata.


Não me resta senão escrever-te
na esperança que o próximo verso te mate; 
na esperança que estas linhas,
esta tinta,
esta noite,
descubram no escuro
um sinal do fim;
uma réstia de cor,
o esboço de um futuro
que possa ainda
acontecer.

Um futuro sem forma
preenchido pela tua ausência,
um tempo suspenso entre a chuva
e a certeza de não poderes existir mais
em mim
senão em forma de memória,
senão em forma de lage
plantada no cemitério
onde esta caneta te deixar repousar.

As flores que te escrevo
sangram
suicidam-se, enforcam-se
pelas pétalas.
Estão secas de pólen
desfazem-se em poeira e cinza
servem apenas como refúgio
dos insectos
contra a solidão.

Estes versos
anunciam a condenação,
a pena perpétua do teu sorriso
criminoso, 
incandescente,
exilado para sempre
do meu.

Não me resta mais nada.
Entrego-me à noite.
Lá fora, os lobos anunciaram três vezes a morte da aurora.
As ambulâncias em pânico procuram em vão um simal do sol.

A noite é eterna
e prepara-se para nunca mais
acabar.

Fecho os olhos.
Lá ao fundo
um fio de luz.
Um rasto sépia,
um desenho inacabado
talvez um dia novo
ou quem sabe,
talvez,
o futuro a amanhecer.

quinta-feira, setembro 27, 2012

Balada da Senhora que limpa

A Senhora da limpeza descansa.
Ao seu lado, uma vassoura suja, repousa também.

Juntas,  disfarçam memórias alheias, escondidas meticulosamente debaixo do tapete:
     copos desfeitos em sangue, pecados capitais;
     impressões digitais de presenças proíbidas.
     pegadas de fugas anunciadas;
     detritos perdidos de outra realidade qualquer;

Quando varre o chão, imagina mentiras entre as migalhas de pão, disfarçando as suas dores com as dores inventadas dos outros:
     traições, suicídios,
     fortunas em chamas,
     impérios destruídos,
     felicidades evitadas.

Mas ninguém a imagina a Ela,
rugas esculpidas a lixívia,
ossos distorcidos pelo tempo,
na tentativa incansável de esconder do mundo
     todas as mágoas,
     todo o lixo
     todas as vidas
     todos os vícios.

Ninguém imagina o que sofre a Empregada
porque foi feita para sofrer,
e imaginar lixo e lixívia,
por certo,
cheira mal.

E assimo mundo gira
sempre em seu redor,
escondendo a sua mágoa
de esfregona em punho
eternamente à espreita
de todos os crimes escondidos,
os passados,
e os que continuam sossegados
à espera de acontecer.

A Mulher-a-dias limpa.
Para os outros apaga:
     crimes passionais,
     doenças ilegais,
     paixões impossíveis,
     mortes invisíveis.

Porque quando a casa é limpa
o mundo começa de novo
e é tempo de a voltar a sujar
a vida toda,
outra vez.

sexta-feira, setembro 07, 2012

Todos os dias.

Dentro do meu quarto crio pássaros imaginários: ensino-lhes sinfonias de assobios, simulações de tornados que só acontecem no baú mágico destas quatro paredes.

Quando me perguntarem o que tenho lá dentro, digo que te tenho a ti: um poema disfarçado de primavera, encerrado no meu quarto para durar as eternidades que me puderes dispensar.

A presença subaquática das flores sugere cores frescas de selvas tão longe que, nem a fazer de conta, consigo imaginar.

Mas o teu riso a qualquer palavra minha serve de explicação inequívoca para qualquer enigma: o mistério da criação do arco íris em permanente reflexo nas ondas distraídas dos teus cabelos; o movimento aleatório das luas que preenchem o teu céu disfarçado de sorriso; as galáxias a reagir em erupções apocalípticas cada vez que passeias discreta pelas ruas de um planeta que ainda nenhum cientista ousou inventar.

Este papel não tem linhas.
O rumo perdido deste poema serve apenas como  testemunha implacável do quanto eu gosto de ti:

Todos os dias
(cada vez mais).
Todos os dias
(sempre demais).

quinta-feira, agosto 30, 2012

o diálogo da tempestade

Ela explicou-lhe o porquê da melancolia, e converteu-o de novo à solidão: uma solidão momentânea, um fio de orvalho gélido entornado no coração, a ameaçar durar para sempre.

Ele procurou-lhe no rosto uma pista para a felicidade, mas a chuva despejava nos olhares trémulos a condenação definitiva ao desalento estéril que cabe no fim de uma vida.

À sua volta, uma multidão de rostos mutilados de esperança celebrava o Carnaval fúnebre daquela união.

Quando se olharam de novo, no meio da tempestade, os seus braços dados abraçavam os relâmpagos incandescentes que teimavam esconder a todo custo a explosão derradeira que anuncia um novo final numa promessa descabida de esperança.

quarta-feira, agosto 22, 2012

o menino dos sete ofícios

Papá, quando for grande
quero ser jogador de futebol!
fintar as pessoas todas
e só para quando marcar um golo!

Mamã, quando eu crescer
vou ser bombeiro e apagar fogos sem parar!
vou ter um camião gigante, uma mangueira
e a terra vai deixar de queimar!

Avô, não sei se já te disse
mas o meu sonho é ser polícia!
vou prender os maus todos na prisão
e salvar as donzelas para o meu coração!

Avó, quando for crescido
quero ser um grande cantor
fazer músicas perfeitas
até todos saberem o meu nome de cor!

e quando eu aparecer nos filmes
e todas as actrizes aparecerem comigo,
vou ser um actor formidável
e o mundo inteiro vai ser meu amigo!

Mas se calhar o melhor é esperar
pois o meu destino é ser super-herói
ou então se os meu poderes não chegarem
posso sempre ser cowboy!

mas...
e se os sonhos não se realizam?
E se não posso ser nada afinal?
Se os livros são todos mentira
E a coca-cola inventou o natal?

Se calhar não tenho outro destino
que não seja a morte certa
e já que a esperança me falta
o melhor é ser poeta...