segunda-feira, maio 14, 2012

Fantasia Verde (ou o Regresso à cidade Esmeralda)

As páginas que ligam Florença ao resto do mundo são verdes:
um verde que encerra em si um milhão de outras cores
que o resto do mundo ainda não soube inventar;
todas elas diferentes, todas elas verdes:

verde esperança e primavera;
verdes áridos a sugerir valas comuns para os sonhos dos condenados;
verdes cinza, espalhados sobre a terra como o nevoeiro definitivo que prepara a chegada da tempestade e o fim da esperança;
verdes sorriso, como desenhos de flor e saudade;
verdes musgo de casa abandonadas ao mistério original da decomposição;
verdes eléctricos, explosivos, a impor alegrias estridentes aos corpos amputados de esperança que se arrastam eternamente pela escuridão do asfalto e da noite;
verdes artificiais, pintados no meio dos outros, como tumores arquitectónicos, a atormentar as paisagens perfeitas demais para não serem destruídas;
verdes borboleta;
verde rio ou verde mar;
verde fogo, verde cinza: verde saudade;

Desfilam todos vestidos a rigor:
uma procissão interminável de cores
todas elas verdes.
E, por detrás de todas elas,
no fundo de todas as cores,
no fundo de todos os verdes,
o verde atómico dos teus olhos apontados aos meus
a explicar-me todas as cores,
a decifrar esta esperança irredutível
que continuo sem saber explicar.


Florença está mesmo a chegar. Um último olhar descobre o arco íris verde que antecede a cidade. E, à chegada, a sucessão de contentores onde os sonhos são enterrados, na escuridão, a salvo da esperança verde que ameaça destruir a qualquer momento todos os nossos projectos megalómanos de solidão.

Desastre Perfeito


Somos o desastre perfeito;
Coleccionamos  momentos impossíveis, e sonhos em que o tempo e o espaço se dobram numa vénia violenta de despedidas que fingimos nunca terem acontecido.
Lá em baixo a cidade disfarça-se de pomar, e os nossos lábios selam com esperança um momento que está sempre prestes a acabar.
Os nossos sorrisos brilham sincronizados, espelhos de felicidades desesperadas, a segurar na ponta dos dedos bocadinhos de esperança que se esticam até que o tempo se gaste, e a partida se imponha em desenhos de névoa e ameaças de saudade.

terça-feira, abril 03, 2012

     Tenho o teu reflexo tatuado nos olhos como uma assombração incandescente: a prova obsessiva de uma atracção descontrolada que espalha o teu sorriso em todas as coisas, em todos os rostos, em todos os lugares: os teus olhos negros de horror e primaveras nas garrafas de vodka vazias que povoam as noites que destruímos para fingir o esquecimento; os teus lábios desenhados pelo lixo espalhado meticulosamente pelos passeios sujos de todas as ruas em que disfarçamos gestos violentos de carinho, desejo e desespero; no olhar histérico dos sem abrigo uma sugestão explosiva do teu sorriso assassino, um rasto desumano dos relâmpagos que te iluminam o corpo quando te esqueces de esconder a felicidade.
     Talvez a paixão seja assim: suja, ácida, despedaçada. A fuga infrutífera à verdade suprema: o fim.
    Não nos resta nada. Nem o passado. Nem o direito à esperança. O divórcio da realidade espalha pelos dias a memória acabada do teu corpo, a imagem imortal da tua pele cicatrizada nos objectos mais insignificantes, nos lugares mais comuns.
    Não há mais nada. Mas há a esperança: ténue, ridícula, acabada. O prolongamento a conta-gotas  destes dias, iguais a todos os que passaram antes de aconteceres. 
     E há o tempo. O tempo infinito que nos separa do momento inevitável em que as máquinas se desligarão naturalmente, e a morte certa deixará de ser uma promessa de liberdade, para passar a ser o alívio infinito do regresso à solidão.

domingo, março 18, 2012

as estações do desassossego

Nas tuas costas há um país inteiro. Nos teus ombros, uma primavera escondida de sorrisos. Nas tuas mãos, fechadas, escondes os espinhos do outono para evitar a melancolia lenta do meu olhar abandonado. Nas tuas curvas, escondemos os escombros de uma história orfã de um final, mesmo que infeliz. E assim, o verão sucede ao inverno nas ruínas incandescentes da nossa memória; os nossos corpos, amputados um do outro, entregam-se na embriaguez sufocada da noite, a fingir felicidades-relâmpago no reflexo turvo de corpos anónimos, devidamente equipados para o desejo descontrolado de quem tenta desesperadamente esquecer-se do fim da esperança; de quem encontra em pernas alheias a promessa húmida de um instante polaróidico que os separa do regresso inevitável à solidão.

segunda-feira, março 05, 2012

detalhes de uma implosão iminente

Há, no meio de nós, um lugar sem nome, tempo ou espaço. Uma barreira invisível, carregada de impossíveis, feita de pesadelos em que o buraco negro onde o terror se esconde nos explode na cara em estilhaços de sangue, memórias e solidão.

Mas o meio de nós fica à distância escondida de um beijo e, à nossa volta, há um laço apertado de saudade, uma força centrífuga de ingenuidade, uma esperança venenosa condenada à imortalidade implacável dos nossos sorrisos.