a terra!
os cadáveres de todos os tempos;
o tempo sobre os corpos do tempo;
terra sobre os corpos,
corpos sobre o tempo,
tempo sobre a morte,
mutilada pelo tempo.
os amantes!
os amores todos de todos os mundos,
apodrecidos pela terra
esquecidos pela terra
entrelaçados com a morte
esquecidos pelo tempo.
a tortura!
escondida pela terra;
esmagada pelo terror do tempo
abraçado pela esperança ou pela morte;
soterrada na decomposição do tempo.
tempo sobre a terra
terra sobre terra,
morte sobre terra;
morte sobre o tempo.
segunda-feira, dezembro 06, 2010
sexta-feira, outubro 01, 2010
frescos de uma cidade distante
Deste-me um dedo de conversa para acender a paixão e partiste. Partiste mas continuaste aqui, na inocência homicida do teu sorriso, a semear confusões no meu coração atrapalhado.
Entretanto, a tua imagem entregou-se à transparência escura das ruas, de inverno em inverno, dedicada ao assalto inevitável dos que se perdem sem querer no encanto explosivo do teu decote.
E a cidade morre: o teu veneno confunde-se com o desassossego dos andaimes, que apontam para as estrelas sem saber que não há fuga possível deste altar de passeios e lama que habitas na esperança centrífuga do suicídio.
Entretanto, a tua imagem entregou-se à transparência escura das ruas, de inverno em inverno, dedicada ao assalto inevitável dos que se perdem sem querer no encanto explosivo do teu decote.
E a cidade morre: o teu veneno confunde-se com o desassossego dos andaimes, que apontam para as estrelas sem saber que não há fuga possível deste altar de passeios e lama que habitas na esperança centrífuga do suicídio.
segunda-feira, setembro 20, 2010
Sonho Pop Escuro
Não partas.
(por favor)
Não me deixes perdido, assim,
a sacudir o desespero neurótico
ao ritmo da electricidade fulminante da fuga
do teu semi-sorriso.
O teu semi-sorriso no meu,
perdido,
perdido,
alienado pelo sonho das tuas pernas descoberta
Não partas;
Eu continuo aqui,
atrás de ti, escondido nas tuas memórias morenas,
esmagado entre os clones imperfeitos da minha devoção decadente,
na espera eterna de uma noite só,
no encalço incessante do teu corpo molhado
no meu.
sábado, setembro 18, 2010
Queria lembrar-me de ti;
de como começavam as frases que pensávamos em metades.
Mas já não me resta nada.
Nem uma memória de paixão reciclada,
nem um gesto técnico de amor,
ou promessas falsas de intimidade.
Queria apenas uma memória,
adormecer a sonhar eternidades,
um gesto mesmo que pobre, de carinho;
ou quem sabe até, saudade.
domingo, agosto 01, 2010
a partida
"Hoje é a última noite que durmimos separados na mesma cidade.", escrevi-lhe. A carta ficou escondida para sempre, para não lhe complicar as nostalgias da partida nem os entusiasmos da chegada. Mas naquele momento, vinte e quatro horas antes de ela partir pela primeira vez, percebi que partia para sempre.
Hoje, passados meses das nossas partidas, sei de cor os continentes que nos separam. Ainda assim procuro-a, nas paredes e igrejas desta cidade que nem sequer é a nossa; que nem se parece com a cidade que não habitamos mais. Tento decifrar os sinais-códigos-enigmas dos olhares dos desconhecidos que sorriem com escárnio da nossa distância, que me despistam com indiferenças falsas, enquanto tento perceber nos sinos das igrejas as coordenadas espaciais do nosso desencontro.
Às vezes desisto. Explico-me que não te quero encontrar nunca mais e arriscar num possível encontro o fim de um sonho tão perfeito. Mas em dias como hoje, em que o peso da noite me faz ver-te para além da escuridão desta cidade em ruínas como se estivesses aqui, sei que não posso descansar enquanto não fizer explodir o sonho num pequeno beijo suícida.
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