quinta-feira, fevereiro 19, 2009

"..For behold, it's because they're in love with themselves that they want you to look at them all the time and keep drawing your attention--in love with themselves and not with you, for if they really loved you, they would not disturb your natural tranquillity of mind---Therefore the most beneficial teaching in this world is the teaching by silence and example of example of silence and repose-----But some must bake the bread, and some eat it, and the bakers are agitated--- Bake therefore yr own bread, calm . . . If you dote one the love of another human being, every time you disturb (her him) to draw your attention to your loving, you do her a disservice as of hating. Beware of lechery and then beware of the conspiring earnestness. . Be like a junk a junk drunk punk, hang motionless in the wait for the time to wheel around . . . This is why a man doesnt need a woman, or a cigarette, or a house. He needs just food for sustenance and a decision to exercise his frill will in thought, and action, and thought is the shadow of action, which is a shadow also."

Some of the Dharma, Jack Kerouac

terça-feira, fevereiro 10, 2009

32

"(...) --- Vejo pairar diante de mim toda uma vida de intermináveis tagarelices na cozinha, os longos sepulcros negros de palavras trocadas à meia-noite sob a lâmpada da cozinha, e sinto-me invadido pelo amor quando me dou conta que a vida, tão sôfrega e incompreendida, não deixa por isso de estender uma mão magra e esquelética para mim e para Billie --- Mas vocês sabem o que eu quero dizer.
E é assim que tudo começa."

Big Sur, Jack Kerouac

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Ele estava sentado no banco a olhar para a chuva convencido que o próximo autocarro nos ia acabar por afogar. E depois perguntou-me. “Porque é que achas que tens mais cultura geral que os outros? Somos mais inteligentes, ou a culpa é toda dos nossos pais por sermos estes totós marginais à espera de um autocarro, demasiado bons para arranjarmos boleia com o gajo do lado afinal?”. “Estás a ver tudo ao contrário meu. Eu só tenho mais cultura geral porque os intelectuais de direita pelo mundo fora a definiram assim. Porque que raio é que eu devo ter mais mérito por gostar mais de livros que aquele gajo do boné de gostar de tunning? Eu aceito as coisas de que gosto da mesma maneira que ele provavelmente!, que culpa ou mérito tenho eu por saber a tonalidade da nona sinfonia do Beethoven em vez de saber mudar uma bateria a um carro? Quando o mundo acabar provavelmente ele vai acabar por ser mais útil do que eu…e não anda de autocarro.”
“Pois, isso é tudo muito bonito, mas e as miúdas meu? Já viste as mulheres que tu tens? E não te esqueças, já te disse isso muitas vezes, tu és mesmo quase quase feio! Como é que achas que consegues, é tudo aleatório ou culpa da sociedade? Não me fodas!”
“Fodo sim! Elas só me acham piada porque os gajos como eu supostamente têm algo que elas gostam, ou que devem gostar ou lá o que é. Gostam do tipo de merdas que eu digo quando estou deitado com elas sem pensar, e acredita que são mesmo um monte de tretas completamente desconexas e sem piada nenhuma. Repara. Eu viro-me para uma miúda e digo: “A tua beleza é deslumbrante”. Mas só faço isto depois de a conhecer há algum tempo, e durante todo esse tempo faço de conta que nem olhei para o corpo dela, para ela achar que o que me interessa é o que está por dentro ou o que ela diz ou qualquer coisa assim. Depois digo isso e elas ficam fascinadas. Um trolha que diga “És como um helicóptero: GIRA E BOA!” sem preparar o terreno antes é pior pessoa que eu, ou menos interessante? Tenho a certeza que o melhor que o trolha conseguiria fazer era “És muito bonita e atraente, sabias?”, que muito honestamente acaba por ser uma versão um bocado maricas da primeira tentativa. Eu, por outro lado, se me esforçasse ou fosse minimamente digno do meu melhor, devia ter dito algo do género “sabes, vamos todos acabar por morrer electrocutados de amor quando o céu nos cair em cima como um banho de sangue.” E agora diz-me que ele não está muito mais perto do seu melhor do que eu? No fundo eu sou um bocadinho de mim enterrado num monte de merda, e ele só tem um lago quase transparente a tapar-lhe a cara. É muito mais fácil chegar a ele. Eu sou uma farsa sepultada. Elas só gostam disto porque acham que deve ser bonito. E não percebem que nunca vão chegar a mim, e que ele era muito melhor.”
“Foda-se, nunca mais bebo contigo.”
“Está bem. Vamos a pé, que se foda a chuva.”

domingo, janeiro 25, 2009

La Palabra

Nació
la palabra en la sangre,
creció en el cuerpo oscuro, palpitando,
y voló con los labios y la boca.

Más lejos y más cerca
aún, aún venía
de padres muertos y de errantes razas,
de territorios que se hicieron piedra,
que se cansaron de sus pobres tribus,
porque cuando el dolor salió al camino
los pueblos anduvieron y llegaron
y nueva tierra y agua reunieron
para sembrar de nuevo su palabra.

Y así la herencia es ésta:
éste es el aire que nos comunica
con el hombre enterrado y con la aurora
de nuevos seres que aún no amanecieron.

Aún la atmósfera tiembla
con la primera palabra
elaborada
con pánico y gemido.
Salió
de las tinieblas
y hasta ahora no hay trueno
que truene aún con su ferretería
como aquella palabra,
la primera
palabra pronunciada:
tal vez sólo un susurro fue, una gota
y cae y cae aún su catarata.

Luego el sentido llena la palabra.
Quedó preñada y se llenó de vidas.
Todo fue nacimientos y sonidos:
la afirmación, la claridad, la fuerza,
la negación, la destrucción, la muerte;
el verbo asumió todos los poderes
y se fundió existencia con esencia
en la electricidad de su hermosura.

Palabra humana, sílaba, cadera
de larga luz y dura platería,
hereditaria copa que recibe
las comunicaciones de la sangre:
he aquí que el silencio fue integrado
por el total de la palabra humana
y no hablar es morir entre los seres:
se hace lenguaje hasta la cabellera,
habla la boca sin mover los labios:
los ojos de repente son palabras.

Yo tomo la palabra y la recorro
como si fuera sólo forma humana,
me embelesan sus líneas y navego
en cada resonancia del idioma:
pronuncio y soy y sin hablar me acerca
al fin de las palabras al silencio.

Bebo por la palabra levantando
una palabra o copa cristalina,
en ella bebo
el vino del idioma
o el agua interminable,
manantial maternal de las palabras,
y copa y agua y vino
originan mi canto
porque el verbo es orígen
y vierte vida: es sangre,
es la sangre que expresa su substancia
y está dispuesto así su desarrollo:
dan cristal al cristal, sangre a la sangre
y dan vida a la vida las palabras.

Pablo Neruda, Plenos Poderes

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Vamos todos festejar o Natal. Festas e família, prendas. Solidariedade. Distribuição de sorrisos. Vá. Eu torno-me um pintor de sorrisos, e todos também. Roupas caras e solidariedade barata. E egos cheios. Este natal sinto-me bem. Dei três peluches semi-novos (tenho quase a certeza que ainda nem fizeram 10 anos!). Dois pares de calças quase sem buracos, e três camisolas pouco largas. E ainda não começaram a cheirar a mofo praticamente. E ei-los. Egos e consciências mais tranquilas pelo Natal. E estamos lançados: Mais preparados que nunca para enfrentar mais um ano difícil, cheio de desafios e novidades, e já não precisamos de pensar nos outros, pelo menos naqueles que não têm nada. A família ainda leva uma prenda nos anos, mesmo a tia que me dá aquelas camisas à riscas. Mas que raio fiz eu para merecer camisas às riscas? Ainda bem que as dou também. Se calhar até consigo passar dois anos sem dar nada a ninguém sem me preocupar, abençoadas as camisas pirosas e consciências porreiras de acalmar. Mas este ano custou tanto ir aos bombeiros. Duas horas no trânsito, o guarda-chuva todo torto, os dois pés na na mesma poça, um para lá, outro para cá, e pareço o comandante num navio a afundar. Estas deviam dar para três anos. Mas pronto. Depois de um banho e a sopa começo a aquecer e fico tão quente cá dentro que me sinto a melhor pessoa do mundo. Que bom, dar sem esperar nada em troca. FODA-SE, ACABASTE DE ALUGAR A TUA CONSCIÊNCIA POR UM ANO INTEIRO. É ASSIM TÃO POUCO ÓBVIO, CARA DE CU EGOÍSTA?
E não me venham com merdas, que penso isto ou aquilo. Ou me digam que conhecem muitas pessoas que não são assim. Eu também conheço um ou dois canhotos, mas o que é certo é que a maioria da população é destra. Se eu trouxer o meu amigo cá a jantar porque tem um pé esquerdo do caralho, deixamos de ter falta de esquerdinos no futebol? Não me fodam.
E a melhor. Eu também sou destro. E também conforto a consciência pelo Natal para ver se ela aguenta o puto do ano todo sem me obrigar a pensar nas criancinhas em África e na história dos dedos a estalar e deles todos a morrer fome. Sou igual a vocês. Lamento. Eis a prova que faltava: Somos todos Filhos da Puta. Já agora, a minha vénia a William Burroughs por me ensinar a beleza da escrita correcta. Isto é, com as palavras todas, palavrões e isso. Dá jeito a um gajo com falta de jeito, poder dizer, por hipótese cara de cu em vez de uma explicação qualquer sobre a cara do sujeito ser sisuda e uma série de outras trampas para dar a sensação (e isto se a explicação for muito boa, e o leitor esforçadamente perspicaz) que, talvez, o sujeito seja efectivamente um cara de cu, e nada mais que isso, ou mais disfarçado, apenas um cara de cu em pleno apogeu da sua natureza babuína.