terça-feira, agosto 26, 2008

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são
[doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente
[exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua
[voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a
[madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande
[íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala
[amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono
[desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos.
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.


Vinicius de Moraes. Antologia Poetica

domingo, junho 08, 2008

Cartas

"Quando o vento se levanta e passa, tua cabeça adormecida põe-se a brilhar. Em redor dela um halo de sombra onde a minha mão entra, vagarosamente, pedindo-te um sinal.
Procuro o rosto com os dedos afiados pelo desejo. Toco a alba das pálpebras que, de súbito, se abrem para mim.
Um fio de luz coalhava na saliva do lábio.
Ouvimos o mar, como se tivéssemos encostado a cabeça ao peito um do outro. Mas não há repouso nesta paixão.
O dia cresce, sem luz - e os pássaros soltam-se do pólen dos sonhos, embatem contra os nossos corpos.
Nada podemos fazer.
Um risco de passos ensanguentados alastra pelo chão da cidade. A noite cerca-nos, devora-nos. Estamos definitivamente sozinhos.
Começamos, então, a imitar a vida um do outro. E, abraçados, amamo-nos como se fosse a última vez...
O tempo sempre esteve aqui, e eu passei por ele quase sempre sozinho.
No entanto, recordo: deixaste-me sobre a pele um rasgão que já não dói. Mas quando a memória da noite consegue trazer-te intacta, fecho os olhos, o corpo e a alma latejam de dor.
Dantes, o olhar seduzia e matava outro olhar. Agora, odeio-te por não me pertenceres mais. Odeio-te. Abro os olhos. Regresso ao meu corpo e odeio-te. E, quem sabe se no meio de tanto ódio não te perdoaria - mas ambos sabemos que o perdão não existe.
Se fugias, perseguia-te. Mas o olhar começava a cegar. Sentia-te, já não te via. E o pior é que o tacto também esqueceu, rapidamente, a sensualidade da pele e o calor do sexo. O rosto aprendido de cor.
Hoje, tudo se sobrepõe. Nomes, rostos, gestos, corpos, lugares... um montão de cinzas que me deixaste como herança.
Não devo perder tempo com o ciúme. A paixão desgastou-me. E nunca houve mais nada na minha vida - paixão ou ódio.
Só isto: se me aparecesses agora, tenho a certeza, matava-te."

Al Berto - O anjo mudo

quarta-feira, maio 28, 2008

Ontem morri de amor no coliseu

Quando a menina/mulher entrou a deslizar no palco todos estavam à espera de uma grande noite. A voz de veludo já estava nas nossas cabeças à espera de ser ouvida. Mas no fundo ninguém esperou que o veludo fosse assim, tão bom que nos apetece enrolar em nós mesmos e sonhar sem parar para sempre.
Cat Power é uma mulher, uma gata e uma menina descontrolada, perdida de amor pela música e repleta de pânico animado dentro de um palco pequeno demais para o mundo que a sua voz envolve.
E assim, de lado, quase deitada, em vénias felinas e descompansadas, a menina senhora gata distribui todas as sílabas e notas com medo e açucar daquele directinho do céu para nós.
São bocadinhos de vida assim que valem a pena viver.
Esta é a minha vénia desajeitada de volta a quem tão pouco nos quis deixar.

terça-feira, abril 29, 2008

Equinócios de Tangerina - 1º Equinócio

paisagens / jamais o vento nos acordará. as sereias saltaram para fora do adolescente sonho. cessaram os cânticos aquáticos. receio olhar-te, quando dormimos juntos sinto o peso incomensurável de tua cabeça sobre o ombro. teu corpo afiado contra o meu. os dedos em teus cabelos descobriam noites intermináveis, ciúmes terríveis, a lembrança doutros corpos. insone, meu corpo abrigava o teu. vestia-te de anémonas envenenadas, matava-te para que não me fugisses. caminhávamos na miragem de algum naufrágio, algures pelas estradas dum continente que nos odiava. a nossa fortuna era estarmos vivos e podermos dormir à beira das auto-estradas e não desejarmos nada. o que possuíamos não era grande coisa mas fingíamos muito bem a felicidade. /


Al Berto - O MEDO

quarta-feira, abril 09, 2008