sexta-feira, março 07, 2008
“Now the rail that runs over their forefather’s bones leads them onward pointing into infinity, wraiths of humanity trading lightly the surface of the ground so deeply suppurated with the stock of their suffering you only have to dig a foot down to find a baby’s hand.”
The subterrenaneans, Jack Kerouac
The subterrenaneans, Jack Kerouac
terça-feira, dezembro 25, 2007
Putas
O momento em que passou por ela, naquele vestido sujo. O momento que lhe passou entre as pernas agitadas. O movimento crescente àquela angustiante languidez. Que lhe desceu aos músculos mais insignificantes que ele nunca ousara usar, naquela força animal com que a segurara. Com que a possuíra também, mas não tanto. Aquele olhar. Suplicante por alguém. O seu poder. A volúpia desvastante que ele deixara reinar. O pensamento de censura que arrastou imperdoavelmente para aquele lado do cérebro, aquele ângulo morto para onde ninguém consegue ver. Aquele que só pode ser desconfiado na fotografia que a memória constrói no futuro se o momento se der a lembrar. As pernas nervosas abertas contra a vontade que ela tão bem simulara. Desenhadas no chão, ampliadas por um candeeiro distante. O sentimento de magnitude que o atravessava a cada segundo que a sentia agradecer-lhe naquele olhar suplicante. O rugir cada vez mais próximo. O lamento. Tão suave. A desmoronar impérios. Não? Mas, tão triste… Só as putas olham assim!...
sábado, novembro 03, 2007
Diluições
Nunca o tinha visto por cá…
Pois.
É de cá.
Moro no quarto andar.
Há muito?
Há uns anos.
Nunca o tinha visto cá.
Pois.
E o que traz hoje cá?
Estou praqui a ver se morro.
Traga-me 6 shots de vodka por favor.
Bebe-os de seguida.
Foda-se.
O barman olha-o curioso.
Merda. Já percebo porque é que os polacos fazem isto na maior. Devem ser tristes de nascença. Filhos da puta.
Enquanto sobe as escadas deixa-o o sangue diluído embatê-lo contra as paredes, sem reacção, sem dor. Estende-se contra a porta à espera da vontade de abrir a porta.
Acorda e sabe que devia ter ficado a dormir para sempre. Água. Que peso. Quer chegar à mesa e tomar os comprimidos todos de uma vez até a cabeça voltar ao peso habitual. E água. Muita água. Foda-se. Que pena não ter morrido. Ou não ter bebido. De qualquer modo estaria melhor. Merda. Tenho de deixar de beber outra vez.
Pois.
É de cá.
Moro no quarto andar.
Há muito?
Há uns anos.
Nunca o tinha visto cá.
Pois.
E o que traz hoje cá?
Estou praqui a ver se morro.
Traga-me 6 shots de vodka por favor.
Bebe-os de seguida.
Foda-se.
O barman olha-o curioso.
Merda. Já percebo porque é que os polacos fazem isto na maior. Devem ser tristes de nascença. Filhos da puta.
Enquanto sobe as escadas deixa-o o sangue diluído embatê-lo contra as paredes, sem reacção, sem dor. Estende-se contra a porta à espera da vontade de abrir a porta.
Acorda e sabe que devia ter ficado a dormir para sempre. Água. Que peso. Quer chegar à mesa e tomar os comprimidos todos de uma vez até a cabeça voltar ao peso habitual. E água. Muita água. Foda-se. Que pena não ter morrido. Ou não ter bebido. De qualquer modo estaria melhor. Merda. Tenho de deixar de beber outra vez.
Uma sexta-feira qualquer
Não sei porque te escrevo menos. Porque acho que tu tens de saber tudo, mas não tens. Vergonha? Nunca percebo bem como funciono cá dentro. Vergonha de te dizer que não mudo os lençóis para dormir na ilusão do teu cheiro. Que tento não pensar em ti porque quando o faço o meu coração quer rebentar. E a minha vida é isto. Autocarros de sonâmbulos feios. Pedintes sem infortúnio de grandeza suficiente para serem ajudados. Rostos todos iguais, como rebanhos para o matadouro. A marchar a passo ritmado para a guilhotina. Mais um bilhete para me tentar esquecer. Viagens infinitas, hoje ainda mais. O sono, os livros, a fugirem de mim como da morte. Vejo o Douro e já nem forças me sobram para sorrir.
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